Sinopse
Felicidade regressa a Lisboa em 1973, nas vésperas da Revolução dos Cravos, para acompanhar um adolescente que se apaixona por Felicidade, uma das três gémeas Kopejka, figuras quase inalcançáveis do seu liceu. A partir dessa paixão juvenil, o romance atravessa décadas de Portugal, cruzando amor, obsessão, remorso, morte, humor, melancolia e memória. João Tordo constrói uma história de educação sentimental e assombração histórica, em que o nome Felicidade é ao mesmo tempo personagem, miragem, promessa e impossibilidade. O país que se transforma politicamente aparece filtrado pela intimidade, pelos afetos e pelas marcas que o tempo deixa nas vidas privadas.
Razão da escolha
O livro permite regressar ao Portugal imediatamente anterior ao 25 de Abril por uma via íntima, não monumental. Em vez de apresentar a história como data oficial, João Tordo mostra o modo como o tempo histórico atravessa corpos, paixões, escolas, famílias e destinos pessoais. Para a Biblioteca Vila Galé, Felicidade reforça a relação entre cidade, juventude, memória e transformação social. A obra também traz uma Lisboa literária marcada por desejo, perda e ironia, evitando tanto a nostalgia fácil como a solenidade histórica. A escolha é importante porque mostra que as grandes mudanças coletivas chegam às pessoas por vias oblíquas: um amor, uma ausência, uma lembrança, uma culpa.
Notas de leitura
Ler como romance de formação sentimental e histórica. A felicidade do título não deve ser tomada como promessa simples; é nome próprio, desejo, engano, fantasma e lembrança persistente. O leitor deve observar como João Tordo alterna humor, melancolia e remorso, construindo uma narrativa em que o passado nunca está verdadeiramente encerrado. A Lisboa de 1973 não aparece apenas como cenário, mas como atmosfera de fim de ciclo. Curatorialmente, o livro interessa porque aproxima memória nacional e memória íntima. Uma revolução pode mudar instituições, mas cada pessoa guarda a sua própria cronologia secreta, feita de paixões, perdas e assombrações.
Biografia do autor
João Tordo nasceu em Lisboa, em 1975. Escritor, argumentista, cronista e tradutor, é uma das vozes portuguesas mais produtivas da sua geração. Licenciou-se em Filosofia e estudou jornalismo e escrita criativa em Londres e Nova Iorque. Recebeu o Prémio José Saramago em 2009 com o romance As Três Vidas, consolidando uma obra marcada por intriga, memória, identidade, relações familiares, mistério, humor e reflexão sobre o tempo. Entre os seus livros contam-se O Bom Inverno, O Ano Sabático, Biografia Involuntária dos Amantes, Ensina-me a Voar Sobre os Telhados e Felicidade. A sua escrita combina legibilidade narrativa e ambição literária.
