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2016

A Gorda

Isabela Figueiredo

Geografia
Portugal

Corpo Identidade

Sinopse

A Gorda acompanha Maria Luísa, mulher marcada pelo excesso de peso e pela violência simbólica que esse corpo provoca nos outros. A narrativa atravessa infância, adolescência, desejo, humilhação, família, amor, solidão, cirurgia, ressentimento e lucidez. Isabela Figueiredo constrói uma protagonista frontal, inteligente e ferida, sem pedir piedade ao leitor nem transformar a personagem numa alegoria fácil. O corpo, no romance, não é detalhe secundário: é território de julgamento social, campo de batalha íntimo e lugar onde se inscrevem preconceito, desejo, exclusão e vontade de vida. A obra combina crueldade, humor, memória e uma inteligência feroz sobre as relações humanas.

Razão da escolha

A Gorda entra na Biblioteca Vila Galé porque obriga a curadoria a enfrentar uma pergunta essencial para qualquer projeto que fale de hospitalidade: quem é verdadeiramente acolhido? A obra desloca o tema do acolhimento do espaço físico para o corpo social. Maria Luísa vive sob o olhar dos outros, e esse olhar é muitas vezes mais violento do que qualquer porta fechada. A escolha é importante porque acrescenta ao conjunto uma reflexão sobre corpo, preconceito, intimidade, exclusão e crueldade quotidiana. Depois de tantos livros sobre território, história e memória coletiva, este romance lembra que o primeiro lugar habitado por cada pessoa é o próprio corpo.

Notas de leitura

Ler sem transformar Maria Luísa num caso clínico, numa vítima exemplar ou num símbolo domesticado. A força do romance está precisamente em recusar esse conforto. A personagem é contraditória, ferida, agressiva, lúcida, desejante e muitas vezes desconcertante. O leitor deve observar como Isabela Figueiredo desmonta a violência social administrada em pequenas frases, olhares, piadas, silêncios e gestos aparentemente inofensivos. A escrita não suaviza a dor, mas também não abdica do humor e da inteligência. Curatorialmente, este livro é uma peça de confronto: traz para a biblioteca a questão do corpo como fronteira, casa, prisão, palco e matéria de resistência.

Biografia do autor

Isabela Figueiredo nasceu em Lourenço Marques, atual Maputo, em 1963, e mudou-se para Portugal em 1975, depois da independência de Moçambique. Professora, jornalista e escritora, tornou-se uma das vozes mais relevantes da literatura portuguesa contemporânea ao tratar, sem complacência, temas como colonialismo, retorno, corpo, identidade, género, memória e violência simbólica. O seu livro Caderno de Memórias Coloniais tornou-se referência na literatura portuguesa sobre a experiência pós-colonial e a memória dos retornados. Com A Gorda, seu primeiro romance, ampliou a sua investigação literária para o corpo feminino, os padrões sociais e as formas subtis de exclusão.