Sinopse
Os Transparentes passa-se num prédio de Luanda, onde personagens comuns vivem entre precariedade, humor, burocracia, desejo, sonho, pobreza e sobrevivência. Odonato, figura central do romance, torna-se progressivamente transparente, imagem extrema da invisibilidade social. À sua volta, a cidade revela-se por meio de vizinhos, ruídos, pequenos gestos, relações afetivas, esquemas de poder e desigualdade. Ondjaki constrói uma narrativa coral, urbana e poética sobre Luanda, o petróleo, a pobreza e a resistência quotidiana. A força do romance está em transformar a dureza social em literatura de grande imaginação, sem retirar às personagens a ternura, o humor e a dignidade.
Razão da escolha
A obra coloca Luanda no centro da literatura contemporânea em língua portuguesa. É um livro urbano, político e poético, capaz de representar desigualdade sem perder leveza narrativa e crítica social sem abdicar da imaginação. Para a Biblioteca Vila Galé, Os Transparentes reforça os eixos de cidade, memória pós-colonial, diversidade, comunidade e experiência de lugar. A escolha é decisiva porque mostra uma Angola contemporânea, viva, contraditória e longe de qualquer visão congelada no passado colonial. Luanda aparece como cidade literária plena, com linguagem própria, humor próprio e formas próprias de resistência. A biblioteca ganha, com este livro, uma respiração africana moderna e urbana.
Notas de leitura
Ler escutando o prédio. A força do romance está na comunidade de vozes, nos vizinhos, nos ruídos, nas conversas, nos pequenos gestos de sobrevivência e nas formas de humor que resistem à precariedade. A transparência de Odonato é uma imagem brutal e delicada: quando a sociedade deixa de ver os seus pobres, a literatura obriga-nos a vê-los. O leitor deve prestar atenção ao equilíbrio entre denúncia e ternura. Ondjaki não transforma as personagens em estatísticas; dá-lhes corpo, fala, desejo e imaginação. Curatorialmente, o livro demonstra que a cidade lusófona contemporânea é também africana, coral, desigual e profundamente inventiva.
Biografia do autor
Ondjaki é o pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, nascido em Luanda, Angola, em 1977. Escritor, poeta e realizador, pertence a uma nova geração de autores angolanos que renovaram a literatura em língua portuguesa no início do século XXI. Estudou Sociologia em Lisboa e desenvolveu uma obra marcada por infância, cidade, memória, oralidade, humor e imaginação. Publicou poesia, romance, conto, literatura infantil e juvenil. Entre os seus livros destacam-se Bom Dia Camaradas, Os da Minha Rua, AvóDezanove e o Segredo do Soviético e Os Transparentes. Recebeu o Prémio José Saramago em 2013, consolidando a sua projeção internacional.
